24 janeiro, 2006

Outono

Vou-me embora.
Está livre o lugar
que quis ocupar em sua vida.
E estará livre dentro de mim
O espaço do desejo que te quis em minha vida.
Sinto mágoas, medos e cansaço.
E sinto raiva
E desejos confusos, ressacados.
Quero me despedir dizendo palavras que não brotam.
Palavras oníricas
De um sonho intenso e maluco.
Mas nada parece fértil agora.
Sinto-me seca, árida.
E consolo-me em pensar
Que assim é a vida.
Os ciclos sucedem-se sem nunca parar.
O tempo das chuvas já passou.
A aridez também terá seu fim.
E é um pouco triste
Saber que as minhas estações
Acontecerão longe dos seus olhos
Distante do seu sorriso e da sua voz.
Não, quisera eu que pouco fosse.
Muito triste, tristíssimo é o que é.
Mas não importa, agora é tempo de ir.

As cores de Frida e da vida

Recebi hoje de um grande, imprescindível amigo um cartão de Feliz 2006. Chegou um pouco atrasado, em meio a um início de ano turbulento que parece anunciar outras coisas, em tudo diferentes da tal felicidade que me foi desejada. O cartão traz uma foto da casa em que viveu Frida Kahlo. A casa pintada em tons de verde, vermelho e lilás. As cores tão vivas, em combinação tão inusual, invadiram minhas memórias, transportaram-me para uma dimensão em que tudo eram cores. Cada pedaço de vida, de morte, os risos, os rios de choro e pranto, o medo, os prazeres, a solidão transformados numa sucessão de cores que foram sendo pintadas por minhas e por outras mãos. Nada poderia ter maior sintonia com o que tenho vivido do que todos aqueles tons fortes, berrantes, misturados. E senti que prefiro assim a vida, mesmo quando, como agora, tudo machuca e dilacera. Não, definitivamente não quero pintar minha vida em tons pastéis.