"Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado gafe." Clarice Lispector
26 fevereiro, 2006
Em vão
Suspendo a respiração
ouço sons
que não entendo
sons lamacentos
lamentos que não pretendo.
Levanto o olhar
quero enxergar
o que ainda não está
luz girando no ar
mas vejo nuvens
e chumbo no seu lugar.
Quero movimento
não a inércia
paralisia no corpo
na alma.
A vontade fraqueja
só os dias passam
permanece a dor
e tudo imóvel ao redor.
25 fevereiro, 2006
Tristeza na carne
Tristeza na carne
na fraca carne em que habita meu fraco espírito.
Hoje estou assim,
triste e fraca,
e só e cansada.
Uma dor de viver
e essa tristeza
que não é de choro, nem de nada,
é tristeza enraizada,
que não me larga,
e me rouba toda a graça
o riso
o compasso.
Estou
triste
fraca
só
e cansada. Muito cansada.
23 fevereiro, 2006
Flores pisadas
O tempo das lágrimas acabou,
o rio começa a secar.
Foi você quem não deixou alternativas,
foi você quem invadiu minha terras,
cruzou meus limites,
fez pouco, muito pouco
das minhas leis.
Sim, você não tem, não tinha
a desculpa de não saber.
Foram ordens suas,
e seus os exércitos marchando sobre meus jardins.
Memórias tristes que voltam em sonhos,
os sons, os cheiros, as imagens daqueles dias.
Sim, você sabia da guerra,
e agora, sabemos nós
que não há fuga possível,
nem sequer imaginária.
Não, não entrego meu país assim.
Estou, talvez para sempre, em guerra.
Flávio de Barros , Guerra de Canudos , 1897.22 fevereiro, 2006
Uma alegria!
Algumas alegrias caem do céu, cafunés que meu coração entristecido não recusa. Foi assim quando nevou nesta cidade que não não via neve há 52 anos. E agora, isto, em mais que perfeita sintonia. Meu sorriso, que anda fugidio, abriu-se.
Companhia
Las dos Fridas, 1939, Óleo sobre tela, 67" x 67", Colección Museo de Arte Moderno, México.Caminho por minha solidão
espreito cada canto,
conheço todos os detalhes,
sinto os cheiros e ouço
as vozes que nunca se calam.
Minha exigente solidão
quer-me inteira,
sem pressa,
sem prazo.
Fala-me em tom grave
que há assuntos urgentes a tratar,
mistérios que não podem, não devem esperar.
Fala-me com ternura,
que me solte,
que me deixe ficar em sua companhia,
que quem marca o compasso é a vida,
no tempo de dentro, não no dos calendários.
Dou-lhe lugar e atenção,
obedeço sem medo. A velha amiga tem razão,
esse tempo de agora, é sim
o tempo da solidão.
Há muito a tratar,
há a vida que embaralhou-se
há as feridas que ainda doem
há o grande armário das lembranças
onde está tudo misturado.
Uma bagunça desde que guardei lá
sem nenhum cuidado, tudo o que estava espalhado,
impedindo o passo,
atrapalhando a passagem,
tinha memória até no meio do corredor,
na velha garagem, nos cafés,
memória pendurada nas paredes, no chão, no quarto.
Juntei cada pedaço, joguei dentro do armário, e tranquei a porta.
E agora tudo isso pede cuidado.
Caminho então com minha solidão,
essa obstinada, mas generosa senhora.
Depois de suas estadias, vai-se e
devolve-me à mim, ao mundo, à vida.
E fica então à espreita,
põe-se de lado,
aparece para pequenas, ainda que frequentes, visitas.
De malas e sem data de ir embora
como agora, só vem quando é mesmo preciso.
18 fevereiro, 2006
Aqui plantei sementes de amor (ou Epitáfio)
Plantei nesta casa
tantas sementes de amor.
Elas não brotaram
não cresceram raízes
nem verde das folhas
ou perfume das flores
tampouco colorido dos frutos.
Fiquei desconsolada,
meu pranto encharcou a terra,
cumprindo-se o destino de
morte, apodreceram as secas,
já sem vida, sementes.
Mas foi nessa casa
que as plantei.
E por isso faço aqui velório
lápide e túmulo do que faleceu.
Feito o enterro
seguirei para o mundo.
Dentro ainda restam outras sementes
e não renego meu destino de jardineira.
Mas essa casa guardará para sempre
um pedaço de mim.
E em nome do que aqui plantei
celebrarei dignas homenagens póstumas,
em memória e poesia.
16 fevereiro, 2006
Poesia bo(b)a
Preciso cuidar de mim
com ternura e desvelo,
como cuido de quem amo.
Preciso deixar em paz a esperança,
parar de atormentá-la com desígnios tão tristes quanto fatais.
E aprender de vez que um dia ruim é só isso,
só um dia ruim.
E que ainda que seja um ano, ou até muitos,
Ainda assim é só isso, e não a vida inteira.
Preciso ler a Adélia em voz alta,
encaracolar os cabelos, desenhar os lábios,
e ouvir feliz o Chico
cantar versos que fez pra mim.
15 fevereiro, 2006
Estes dias
e alguns espasmos, espantos
dias claros
luz de lúcifer, clareira lúcida
dias tristes
dores novas, antigas cantigas
dias sem prantos
sem voz, seca a garganta
dias de espera
e ao fim do luto,
novas cores no branco das minhas telas.
14 fevereiro, 2006
Fim
Quando as palavras preferem não se pronunciar
Quando nem se sabe porque a dor insiste e paralisa
E tudo é alheio, longe, estéril.
E o amor perdeu o riso e o rumo,
Desesperançou-se, despedaçado em ruínas de ilusão.
12 fevereiro, 2006
Presente
sem pressa
atravessou minha travessia
desinterditou
minhas avenidas
minha vida
como magia
esse estranho dia termina
com seu fado rebolado
enchendo de vida
um reinado
sem
rei
sem
rainha.
Susto
nenhum mapa
nenhuma resposta
eu inquieta
solta e presa
incerta.
Tenho apenas palavras.
O porto de agora
não se fez destino,
e sim passagem.
10 fevereiro, 2006
Demora
Frida Kahlo, Diego en mi Pensamiento, 1943 - Oleo sobre masonite

De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central”
(Panis et Circensis, Caetano Veloso e Gilberto Gil)
Não consigo parir essa dor. Essa dor de te sentir vivo dentro de mim e de ter que te matar à força, num golpe decisivo com o punhal que encomendei, mas o punhal que encomendei nunca mais fica pronto, e essa demora se alonga, e você rindo dentro de mim, fazendo graça com minhas memórias, revirando as gavetas dos anos, intrometendo-se nos meus sonhos, desalinhando minhas certezas, trepando nas teias do meu pensamento feito menino em jabuticabeira. Eu tenho urgência desse punhal, preciso te matar logo, preciso te impedir de me lembrar daquele exato instante em que você pousou pela primeira vez a mão na minha coxa, quando passamos a noite experimentando cachaças e aproximações, todos os tipos de cachaça, e nos beijamos e bêbados, não podíamos fechar os olhos que tudo rodava, e beijávamos assim mesmo, com o mundo rodando por causa da cachaça e dos beijos, e depois o mundo rodou tanto que foi preciso chão para o corpo e não só para os pés, e nós então deitados no chão daquele quarto de arrumação, e de mãos dadas e os pés para o alto, apoiados nas bicicletas apoiadas na parede, e até hoje quando fecho os olhos tudo roda ao redor, numa embriaguez que não passa, e por isso preciso do punhal, porque não aguento mais não poder fechar os olhos, não poder soltar a mão que você juntou à sua naquele dia. E essa demora não pode continuar, essa demora perigosa e traiçoeira, que te dá espaço e você, folgado, aproveita e esparrama-se no sofá da alma, serve-se de um Porto, oferece-me outro, eu recuso, já te disse que não te quero mais nem para dividir o prazer de um cálice de Porto, e você continua como se nem ouvisse minhas palavras rudes, você acha que esse lugar é seu e insiste em coisas que já não interessam, como aquelas histórias loucas que você inventava para me fazer rir, e eu ria tanto, nós ríamos tanto juntos e o mundo rodando de novo, sua mão na minha coxa, os pés na bicicleta, os risos e eu aqui, à espera desse punhal que nunca mais chega, tentando parir essa dor de te saber vivo, tão vivo dentro de mim.
09 fevereiro, 2006
Dentro e fora
e medo emaranhados.
O mundo, tudo o que importa do mundo,
Confinado em mim
Nesse sentir que de tão fundo me sufoca
E me faz perdida. Procuro
palavras certeiras. Todas escapam-me.
Há nelas, como em mim,
O destino da falta
A incapacidade da comunicação.
A impossível ponte morre antes de ser chão.
Quero asas e um vôo alto
Quero sumir no vento dos dias,
Esconder-me da pesada lembrança da vida.
Nunca mais meu solo encharcado de lágrimas
Nunca mais o sangue escorrendo
Nunca mais feridas que não consigo cuidar .
Assusto-me com esses pensamentos,
E o poema estanca,
Censurado antes de virar ritmo,
Abafado antes de ser asas.
Só essa chuva não consigo nunca controlar
E vira tempestade, aguaceiro
de verão no inverno Portugal.
08 fevereiro, 2006
Auto-ajuda
O filho e o pai
Homens que se devem um ao outro.
O filho, porque do pai vieram a vida,
O modelo, o aprender a ser homem.
O pai, porque ao filho dar a vida,
deu a si a difícil tarefa de ser modelo,
Tornar-se homem para o menino aprendiz
Aprender como devia ser.
E assim foi que tendo gerado o filho,
o filho gerou o pai.
E o menino olhava com olhos deslumbrados
o pai tão cheio de feitos,
que lhe derramava histórias inacreditáveis
de amores, de guerras, de lutas e honra.
Histórias de lugares e tempos distantes,
Misturadas aos cheiros e sabores dos verões partilhados,
Das enormes travessias a nado,
Das férias na capital, dos batidos de pêssego
Pelo pai preparados.
Mas o filho, como todo filho menino,
ressentia-se das ausências desse pai.
As guerras o iam deixando longe,
E não eram estas
aquelas nobres batalhas distantes
que o pai não se cansava de contar.
Eram guerras muito piores, cotidianas,
na casa-campo de batalha,
que desdiziam o que o filho desde sempre
havia ouvido do pai.
Guerras que entristeciam
E ameaçavam desfigurar mais e mais o pai
perante os olhos ávidos do pequeno aprendiz.
E foi então que o filho menino
Se fez filho virando homem.
Filho-homem que luta para proteger o homem-pai,
Filho-menino que deseja próximo o pai,
Filho-homem que descobre que a distância do pai
Não é pouco amor pelo filho.
E enquanto o menino crescia
O pai se meninava.
Hoje, o filho já homem crescido
Defronta-se com o pai menino tornado.
E ambos, sem nunca disso falar,
Põem-se agora em guerra
Lutando por algo que sequer parecem saber.
Vejo esse filho já homem e tão menino
E um pai outra vez menino ainda que tão homem.
Vejo aquele filho-menino que por esse pai
teve que fazer-se homem,
Cobrando contas passadas,
Desfazendo o que outrora fez
ao erguer a voz para defender o homem-pai,
Compreendendo suas fraquezas,
Aceitando-o nas suas omissões e erros.
Coisas que são permitidas aos homens,
Porque aos homens tudo isso é intrínseco.
Tudo o que é proibido aos pais,
Pois que os filhos, mesmo crescidos, são sempre meninos.
05 fevereiro, 2006
Dor
Acaso ignora que preciso respirar sem dor?
Que suas garras afiadas em culpas e medos
Quase me roubam a vida?
Vai, ouve meu pedido
Que é mais que pedido,
É esse suplicar desesperado
De que me desafogue,
E me largue rápido que já sinto minha força indo embora.
Ah, coração, me confessa
que violência é essa,
Onde aprendeu a ser assim?
Acalma, coração, que é preciso calma
Que o mundo não acaba
Quando seus gritos anunciam que tudo já se foi.
Então acalma e silencia
que preciso respirar sem dor.
03 fevereiro, 2006
Minha Maria também chovia
E eu que já me sabia Maria,
descubro-me agora chuvosíssima.
Tudo em mim escoa
Medos, cansaço, susto
e o que mais da vida for
vira correnteza desesperada,
irrepresável.
Feito um rio que outra coisa não pode ser
além de violentas águas correndo pro mar.
Onírico
tem pó.
Temor do tempo no amor.
Amor no não-tempo
Não tem pó.
Temporão, só tem luz
E a surpresa de poder estar
Sem nunca chegar
Sem precisar partir.
E a delícia de prescindir
Do tempo, do pó, dos nós em nós.
02 fevereiro, 2006
Sementeira
Lembro o desgosto, o sabor azedo
cada vez que meu amigo dizia do
meu bom coração. Eu sempre o negava.
“Bom nada, que isso não existe.”
E emendava, não sei se para ele ou para mim,
“Esse coração
é apenas tolo, medroso, pela metade.”
Dou, sempre dei, muito pouco
trabalho. O amor, frágil, cheio de redomas,
de intensivos cuidados.
Não aprendi a atravessar a raiva,
escapa-me deixá-la ser
terreno por onde eu
possa caminhar. E fazia dela rio,
onde afogava-me,
afogo-me,
sozinha.
Os outros não sabiam, nem sabem.
Submersa no meu rio,
cuidava de mantê-los secos,
e o tão frágil amor protegido.
Mas o remédio fez-se veneno.
Quando percebi, já quase tudo
quase quase tudo
havia morrido.
Em meio aos escombros, à dor,
ouço palavras
vindas do que ainda vive.
As palavras do Poeta
distinguem-se claras
e tudo o mais silencia.
“Sê inteira”.
Sorrio, levanto-me,
As palavras repetem-se.
Penso no Poeta. Nas duas
palavras. E penso no amigo.
Sê inteira,
Bom coração,
Tolo, pela metade.
Sê inteira.
Se é difícil a ordem dada,
impossível é o contrário dela.
As palavras drenam minha enchente,
“Sê inteira” e seus ecos n'alma,
sementeira do porvir em que tentarei
seguir sem nada de mim
excluir,
sem nada de mim
exagerar.