25 março, 2006

A dor e o medo


A dor:
a menina esforçou-se
na tão repetida lição,
acreditou
que tinha enfim entendido,
mas veio a vida,
severa professora,
e riscando tudo,
escreveu um grande zero em vermelho.

O medo:
a eterna menina
que não sabe ler o amor
não conseguir nunca aprender.
Sem passar nessa disciplina

não passa nunca de menina à mulher

18 março, 2006

A Mulher no Labirinto

Toada ( Adélia Prado)
Cantiga triste, pode com ela
é quem não perdeu a alegria.


A mulher dos horizontes amplos
e levezas d’alma
voltou hoje,
chegou à noitinha
recitando a Toada lindamente,
contando-me segredos e feitiços.
Permitiu-me revelar alguns:
disse que não voltou
porque sempre esteve
e que se não a vejo
é pura cegueira.
A causa:
dor e angústia,
temperados com medo e pressa.
Mistura de fazer
escuridão
e encarcerar o olhar.
A mulher está aqui
abrindo espaço para toda uma vida.
Foi buscar longas histórias,
da mãe cuidando muito mais de todos que de si,
do pai, antes força e depois abismos sem fim,
tornando-se cada dia mais filho e menos pai.
Trouxe a avó e seus tachos de doces
espalhando cheiros pela casa,
perfumes de amor na minha memória.
E o avô cardíaco
namorando horas o saxofone
que já não podia tocar
passando, com o tempo,
a música
a ecoar dos dedos do irmão.
A mulher sorrindo
sussurrou que da irmã
não é preciso contar.
Ela, aparecida,
aparece em tudo,
está em cada linha
de cada verso
dos meus dias,
daqueles de menina perdida
em que não vejo a mulher,
e dos dias em que estou inteira,
menina, moça e mulher.
A estas histórias
juntou ainda outras
de amigos,
amores,
desamores.
E com arte e paciência
vai unindo todos estes pedaços,
quer formar um forte fio
de um novelo de lã.
Fio de Ariadne no labirinto da vida.

16 março, 2006

Sorriso-lua crescente


Para esse amigo que fala de seu riso difícil, aqui . Para todos que queremos rir mais facilmente, mais vezes e sempre verdadeiramente.

Seus risos riscam imprecisos
arriscando em meio
a fragmentos
medos
e dor
uma
linha
reta.
Risos fáceis
dádiva que desejo
fazem curvas generosas
desenhos no rosto e na alma.

Esses versos riem um riso assim
nessa curva deitada
de lado para você.

15 março, 2006

Horizontes



Pensamentos esquisitos me inquietam.
Isso e as gotas de chuva
cada uma delas
delicadamente
derramando
tristeza sobre meu teclado.

Pensamentos e chuvas que não me obedecem.

Quero de volta a mulher que ontem sorria
fotografando flores
revelando futuros.
Ela esteve nesta casa
com levezas d’alma que há muito não sentia
espaço aberto
para música e desejos.
Foi-se embora em meio ao jantar que preparava.
A mulher que cozinhava com gosto
comida mineira e feitiços
de ressuscitar a infância
saiu num galope
assustada
nem bilhete deixou.

Fugiu como se tivessem lhe aparecido fantasmas.

Deixou-me aqui sozinha.
Passei o dia a sua procura
e nada
nenhum vestígio daquela mulher em mim.
Ela não pensaria esquisitices
sobre um mundo mais feio sem você.
Seus olhos vêem mais além
amplos horizontes
e força para percorrê-los.
Com o que enxergam,
esses olhos espalham brilho
e não gotas de tristeza sobre o computador.

11 março, 2006

Será que ainda lembra que sempre adorei o não obstante?

Na foto, as duas Marias.


Bairro alto,
bares,
eu alta,
e seus amigos,
meus,
música, festa,
gente sorrindo,
beijando.
Sorrio e danço,
arranho meu parco inglês,
tento arrebitar com lux(o),
mas a fila é grande
e a vontade nem tanto.
Chego só,
é noite, alta madrugada,
horas que me trazem você.
O hálito ainda cheirando à álcool,
o pulmão, mais tabaco que ar.
Tento ser maior que a perda,
correr além das mágoas,
de tudo o que não compreendo,
do que jamais compreenderei.
Aos poucos,
sei que chego lá.
Não obstante,
o saber não elimina a dor,
não suaviza a vida,
não enxuga lágrimas que já nem correm.
Trago feridas fundas.
E hemorragias de um amor

que acreditei ser mais alto,
maior que todo o resto.
Do meu mundo.


09 março, 2006

Constatação



Morangos embalados na geladeira
folhas de papel espalhadas sobre a mesa
lembranças de um amor bonito na cabeça.
Os morangos envelhecem à espera de apetite,
as folhas ganham mais pó do que tinta
e as lembranças não deixam esquecer:
o amor só foi bonito na cabeça.

08 março, 2006

Busca



Procuro palavras há dias.

Hoje enquanto olhava
sapateiras presas num aquário,
descobri porque não as encontro.
As sapateiras no aquário
estão vivas
num faz-de-conta.
O enorme retângulo
cheio de água e borbulhas
é recanto da morte,
onde aguardam as já terminais sapateiras,
onde pelo fim esperam sem nem sapatear.
E olhando a morte disfarçada de vida
descobri que quero palavras
para brincar de esconde-esconde.
Buscava palavras para encobrir,
e por isso não as encontrei.

Palavras são brinquedos-revelação.

A angústia que sinto
é o sapatear das coisas
que não ouso conhecer,
confinadas num aquário
obscuro
impossível
de ignorar.
Como só o que vive sapateia
esse som torna-se tormenta e consolo.
Que então sapateiem,
façam mais e mais barulho,
até que eu as encontre,
e aprendendo-as possa finalmente nomeá-las
com as desejadas palavras que busco.

Palavras-revelação.

É como tirar as sapateiras do aquário
e devolvê-las à vida,
ao mar.

Angústia



Tudo tão cheio de pó
e um forte cheiro a mofo.
Martírio de uma alma alérgica
condenada a viver
junto a medos envelhecidos.

05 março, 2006

Não diga que me ama



Quero partir
não quero delongas.
Não me olhe
não me chame
e não, não diga que me ama.
Quero ar
e voar com pés no chão.
Quero minha terra
uma grande janela
e traços firmes
no desenho constante
sem tréguas
do mapa que faço
meu mundo.
Não me fale de outrora
de disparates
enganos
não me conte que está dilacerado
não quero ouvir nada
tente fazer silêncio
fique distante
e não, não mais diga que me ama.
Eu já parti.



03 março, 2006

Eu-poesia



Estou virando poesia.
Suor

em versos
Respiração

em ritmos, sons
Idéias
puro lirismo, encanto
Dores
em cadência
carências do viver.
Palavras-divã
espaço de vida
fronteira sã.
Eu-poesia
sonhando em rimas
metamorfoseando-me em metáforas

vivendo compassos.
Poema vivo
à espera de quem o compreenda,
e sabendo-o de cor,
descubra

deslumbrado
sempre novos sentidos
nas mesmas palavras repetidas.

02 março, 2006

Vida

Um trecho de "Vida", de Chico Buarque. Trilha sonora para ajudar a arrebitar!


"Luz,
quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais."

Outros passos cansados



Muito longe, do outro lado do oceano,
há um homem que caminha cansado.
Ele também tem os olhos tristes.
A moça diz ao homem o que a mãe disse à ela:
arrebita, amigo, arrebita!

No olhar

Para a mãe, que faz de tudo para me ajudar a arrebitar.

A moça tem os olhos tristes.
A mãe cuida, ajuda,
por fim ordena, voz firme e zelosa:
arrebita, menina, arrebita!
A mãe entende fundo
o que dizem aqueles olhos.
É conhecedora dos amores e ainda mais das dores.
Já teve que arrebitar-se
sabe como custa
sabe que demora.
A moça segue
seu caminho por entre precipícios.
Sente que precisa de redes
redes que a segurem,
que não a deixem
despencar
abismo
abaixo.
E então, a moça dos olhos tristes,
tece suas redes,
entrelaça palavras num tear
que ela própria criou.
Cada rede segura um pouco de vida,
prende cores que um dia
estarão em seus olhos,
no lugar da tristeza de agora.
Quando a moça arrebitar
não perguntem, não será preciso.

Isto estará em seu olhar.

01 março, 2006

E agora, o que eu faço da minha vida?

O dia estava bonito, o céu de Lisboa um espelho de luz azul. Dentro, nuvens carregadas de palavras presas. Maquiei minha dor, enfiei uma bela roupa e saí caminhando sem destino. Queria aquela luz toda invadindo minha alma, fazendo mágica em meus olhos. Andei por horas, observando as pessoas, as casas, os azulejos nas fachadas, as árvores ainda nuas à espera da primavera. Já era fim de tarde, as pernas estavam cansadas, pedindo cadeira e alívio. Foi quando sentei num café, onde havia numa das paredes um espelho que me fez ver o que no fundo eu já pressentia. Meus olhos mostravam com clareza que a mágica que desejei não tinha ocorrido. Eram olhos tristes os que lá se refletiam. Pensei nas árvores nuas mostrando o que eu tentava esquecer. E foi pensando nos galhos agora secos que mais uma vez desisti de acelerar o tempo, de querer encurtar os ciclos. Levantei-me e pus-me a caminhar de volta para meu casulo, mas não via mais ruas, nem pessoas, nem cidade. O olhar voltou-se para dentro, unindo imagens agora irmãs, as árvores nuas e o olhar triste, demorando-se em observá-las, em apreendê-las. Entrei em casa com o pensamento ainda brincando com o novo caleidoscópio que tinha trazido das minhas andanças. Já de frente para a tela do computador, puxando com força o pensamento de volta ao calendário, aos prazos e trabalhos acumulados na exata medida da rebeldia das idéias e sentimentos, que gostam de vaguear autonômos, seguindo um tempo próprio, o tempo das árvores nuas. E no meio dessa luta, abro minha caixa postal para checar meus emails. Entre algumas mensagens de amigos, uma chama de imediato a minha atenção. Vinda do outro lado do Atlântico, escrita por uma prima adolescente que mora na pequena cidade em que nasci. Era a primeira vez que ela me enviava um email, e dizia apenas: “O que eu faço da minha vida? Me ajude...”. Atordoada, perdi naquele momento a luta para trazer o pensamento pros trabalhos pendentes, pelo menos por aquela noite já não adiantava mais insistir. Peguei o telefone, e depois de várias tentativas, consegui finalmente falar com ela. Rindo, um pouco envergonhada, me disse: “O pedido de ajuda não era assim tão sério, não precisava se preocupar tanto, aquela pergunta foi bobagem minha, mas obrigada por ter se preocupado comigo”. E contou-me de suas dores de amores. Conversamos sobre essas dores e outras cores. No fim, eu disse algo que era ao mesmo tempo para mim e para ela, sobre a pergunta do email “O que eu faço da minha vida?”. Eu queria falar de um jeito bem simples, que ela pudesse com seus 13 anos entender. E o que falei foi que essa pergunta iria voltar muitas vezes, que é o tipo de pergunta que nos aparece em muitos momentos da nossa vida. Sempre que estamos diante de uma escolha, sempre que estamos insatisfeitos ou tristes, sempre que acontecem coisas inesperadas que nos tiram o chão, sempre que temos "dores de amores", dessas que ela começava agora a descobrir. E que a pergunta merecia atenção, merecia que pensássemos nela com cuidado, que não era uma bobagem, não. E disse ainda que essa é uma perguntinha danada, que ninguém pode respondê-la por nós, e a resposta, que não existe pronta, tem que ser construída a cada vez que a pergunta aparecer, o que nem sempre é fácil. Às vezes, escolhemos errado e temos que repensar, refazer o caminho. Assim é a vida e seguimos fazendo tentativas sem garantias de que as escolhas feitas darão certo. Ainda me lembro as últimas frases que disse: “O que posso te dizer é que ajuda muito quando podemos partilhar as dúvidas, as tristezas, as incertezas. Posso dizer também que ajuda quando temos pessoas em quem podemos confiar, que podem estar ao nosso lado quando as coisas não estão bem, quando o coração bate muito aflito.” Nos despedimos, e combinamos de nos falar mais vezes através do msn. Ela estava mais solta, dando risadas gostosas, preocupando-se com o que iria dizer à mãe ao ser questionada sobre os segredinhos que tinha comigo.
Desligamos, eu permaneci sentada no sofá, acendi um cigarro, lembrei do caleidoscópio, das árvores que sempre terão seu tempo de nudez, do meu olhar triste. E ali, estática naquele sofá, tudo o que eu queria era uma resposta para a pergunta que não mais parava de ecoar na sala: E agora, o que eu faço da minha vida?