25 março, 2006

A dor e o medo


A dor:
a menina esforçou-se
na tão repetida lição,
acreditou
que tinha enfim entendido,
mas veio a vida,
severa professora,
e riscando tudo,
escreveu um grande zero em vermelho.

O medo:
a eterna menina
que não sabe ler o amor
não conseguir nunca aprender.
Sem passar nessa disciplina

não passa nunca de menina à mulher

18 março, 2006

A Mulher no Labirinto

Toada ( Adélia Prado)
Cantiga triste, pode com ela
é quem não perdeu a alegria.


A mulher dos horizontes amplos
e levezas d’alma
voltou hoje,
chegou à noitinha
recitando a Toada lindamente,
contando-me segredos e feitiços.
Permitiu-me revelar alguns:
disse que não voltou
porque sempre esteve
e que se não a vejo
é pura cegueira.
A causa:
dor e angústia,
temperados com medo e pressa.
Mistura de fazer
escuridão
e encarcerar o olhar.
A mulher está aqui
abrindo espaço para toda uma vida.
Foi buscar longas histórias,
da mãe cuidando muito mais de todos que de si,
do pai, antes força e depois abismos sem fim,
tornando-se cada dia mais filho e menos pai.
Trouxe a avó e seus tachos de doces
espalhando cheiros pela casa,
perfumes de amor na minha memória.
E o avô cardíaco
namorando horas o saxofone
que já não podia tocar
passando, com o tempo,
a música
a ecoar dos dedos do irmão.
A mulher sorrindo
sussurrou que da irmã
não é preciso contar.
Ela, aparecida,
aparece em tudo,
está em cada linha
de cada verso
dos meus dias,
daqueles de menina perdida
em que não vejo a mulher,
e dos dias em que estou inteira,
menina, moça e mulher.
A estas histórias
juntou ainda outras
de amigos,
amores,
desamores.
E com arte e paciência
vai unindo todos estes pedaços,
quer formar um forte fio
de um novelo de lã.
Fio de Ariadne no labirinto da vida.

16 março, 2006

Sorriso-lua crescente


Para esse amigo que fala de seu riso difícil, aqui . Para todos que queremos rir mais facilmente, mais vezes e sempre verdadeiramente.

Seus risos riscam imprecisos
arriscando em meio
a fragmentos
medos
e dor
uma
linha
reta.
Risos fáceis
dádiva que desejo
fazem curvas generosas
desenhos no rosto e na alma.

Esses versos riem um riso assim
nessa curva deitada
de lado para você.

15 março, 2006

Horizontes



Pensamentos esquisitos me inquietam.
Isso e as gotas de chuva
cada uma delas
delicadamente
derramando
tristeza sobre meu teclado.

Pensamentos e chuvas que não me obedecem.

Quero de volta a mulher que ontem sorria
fotografando flores
revelando futuros.
Ela esteve nesta casa
com levezas d’alma que há muito não sentia
espaço aberto
para música e desejos.
Foi-se embora em meio ao jantar que preparava.
A mulher que cozinhava com gosto
comida mineira e feitiços
de ressuscitar a infância
saiu num galope
assustada
nem bilhete deixou.

Fugiu como se tivessem lhe aparecido fantasmas.

Deixou-me aqui sozinha.
Passei o dia a sua procura
e nada
nenhum vestígio daquela mulher em mim.
Ela não pensaria esquisitices
sobre um mundo mais feio sem você.
Seus olhos vêem mais além
amplos horizontes
e força para percorrê-los.
Com o que enxergam,
esses olhos espalham brilho
e não gotas de tristeza sobre o computador.

11 março, 2006

Será que ainda lembra que sempre adorei o não obstante?

Na foto, as duas Marias.


Bairro alto,
bares,
eu alta,
e seus amigos,
meus,
música, festa,
gente sorrindo,
beijando.
Sorrio e danço,
arranho meu parco inglês,
tento arrebitar com lux(o),
mas a fila é grande
e a vontade nem tanto.
Chego só,
é noite, alta madrugada,
horas que me trazem você.
O hálito ainda cheirando à álcool,
o pulmão, mais tabaco que ar.
Tento ser maior que a perda,
correr além das mágoas,
de tudo o que não compreendo,
do que jamais compreenderei.
Aos poucos,
sei que chego lá.
Não obstante,
o saber não elimina a dor,
não suaviza a vida,
não enxuga lágrimas que já nem correm.
Trago feridas fundas.
E hemorragias de um amor

que acreditei ser mais alto,
maior que todo o resto.
Do meu mundo.


09 março, 2006

Constatação



Morangos embalados na geladeira
folhas de papel espalhadas sobre a mesa
lembranças de um amor bonito na cabeça.
Os morangos envelhecem à espera de apetite,
as folhas ganham mais pó do que tinta
e as lembranças não deixam esquecer:
o amor só foi bonito na cabeça.

08 março, 2006

Busca



Procuro palavras há dias.

Hoje enquanto olhava
sapateiras presas num aquário,
descobri porque não as encontro.
As sapateiras no aquário
estão vivas
num faz-de-conta.
O enorme retângulo
cheio de água e borbulhas
é recanto da morte,
onde aguardam as já terminais sapateiras,
onde pelo fim esperam sem nem sapatear.
E olhando a morte disfarçada de vida
descobri que quero palavras
para brincar de esconde-esconde.
Buscava palavras para encobrir,
e por isso não as encontrei.

Palavras são brinquedos-revelação.

A angústia que sinto
é o sapatear das coisas
que não ouso conhecer,
confinadas num aquário
obscuro
impossível
de ignorar.
Como só o que vive sapateia
esse som torna-se tormenta e consolo.
Que então sapateiem,
façam mais e mais barulho,
até que eu as encontre,
e aprendendo-as possa finalmente nomeá-las
com as desejadas palavras que busco.

Palavras-revelação.

É como tirar as sapateiras do aquário
e devolvê-las à vida,
ao mar.

Angústia



Tudo tão cheio de pó
e um forte cheiro a mofo.
Martírio de uma alma alérgica
condenada a viver
junto a medos envelhecidos.

05 março, 2006

Não diga que me ama



Quero partir
não quero delongas.
Não me olhe
não me chame
e não, não diga que me ama.
Quero ar
e voar com pés no chão.
Quero minha terra
uma grande janela
e traços firmes
no desenho constante
sem tréguas
do mapa que faço
meu mundo.
Não me fale de outrora
de disparates
enganos
não me conte que está dilacerado
não quero ouvir nada
tente fazer silêncio
fique distante
e não, não mais diga que me ama.
Eu já parti.



03 março, 2006

Eu-poesia



Estou virando poesia.
Suor

em versos
Respiração

em ritmos, sons
Idéias
puro lirismo, encanto
Dores
em cadência
carências do viver.
Palavras-divã
espaço de vida
fronteira sã.
Eu-poesia
sonhando em rimas
metamorfoseando-me em metáforas

vivendo compassos.
Poema vivo
à espera de quem o compreenda,
e sabendo-o de cor,
descubra

deslumbrado
sempre novos sentidos
nas mesmas palavras repetidas.

02 março, 2006

Vida

Um trecho de "Vida", de Chico Buarque. Trilha sonora para ajudar a arrebitar!


"Luz,
quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais."

Outros passos cansados



Muito longe, do outro lado do oceano,
há um homem que caminha cansado.
Ele também tem os olhos tristes.
A moça diz ao homem o que a mãe disse à ela:
arrebita, amigo, arrebita!

No olhar

Para a mãe, que faz de tudo para me ajudar a arrebitar.

A moça tem os olhos tristes.
A mãe cuida, ajuda,
por fim ordena, voz firme e zelosa:
arrebita, menina, arrebita!
A mãe entende fundo
o que dizem aqueles olhos.
É conhecedora dos amores e ainda mais das dores.
Já teve que arrebitar-se
sabe como custa
sabe que demora.
A moça segue
seu caminho por entre precipícios.
Sente que precisa de redes
redes que a segurem,
que não a deixem
despencar
abismo
abaixo.
E então, a moça dos olhos tristes,
tece suas redes,
entrelaça palavras num tear
que ela própria criou.
Cada rede segura um pouco de vida,
prende cores que um dia
estarão em seus olhos,
no lugar da tristeza de agora.
Quando a moça arrebitar
não perguntem, não será preciso.

Isto estará em seu olhar.

01 março, 2006

E agora, o que eu faço da minha vida?

O dia estava bonito, o céu de Lisboa um espelho de luz azul. Dentro, nuvens carregadas de palavras presas. Maquiei minha dor, enfiei uma bela roupa e saí caminhando sem destino. Queria aquela luz toda invadindo minha alma, fazendo mágica em meus olhos. Andei por horas, observando as pessoas, as casas, os azulejos nas fachadas, as árvores ainda nuas à espera da primavera. Já era fim de tarde, as pernas estavam cansadas, pedindo cadeira e alívio. Foi quando sentei num café, onde havia numa das paredes um espelho que me fez ver o que no fundo eu já pressentia. Meus olhos mostravam com clareza que a mágica que desejei não tinha ocorrido. Eram olhos tristes os que lá se refletiam. Pensei nas árvores nuas mostrando o que eu tentava esquecer. E foi pensando nos galhos agora secos que mais uma vez desisti de acelerar o tempo, de querer encurtar os ciclos. Levantei-me e pus-me a caminhar de volta para meu casulo, mas não via mais ruas, nem pessoas, nem cidade. O olhar voltou-se para dentro, unindo imagens agora irmãs, as árvores nuas e o olhar triste, demorando-se em observá-las, em apreendê-las. Entrei em casa com o pensamento ainda brincando com o novo caleidoscópio que tinha trazido das minhas andanças. Já de frente para a tela do computador, puxando com força o pensamento de volta ao calendário, aos prazos e trabalhos acumulados na exata medida da rebeldia das idéias e sentimentos, que gostam de vaguear autonômos, seguindo um tempo próprio, o tempo das árvores nuas. E no meio dessa luta, abro minha caixa postal para checar meus emails. Entre algumas mensagens de amigos, uma chama de imediato a minha atenção. Vinda do outro lado do Atlântico, escrita por uma prima adolescente que mora na pequena cidade em que nasci. Era a primeira vez que ela me enviava um email, e dizia apenas: “O que eu faço da minha vida? Me ajude...”. Atordoada, perdi naquele momento a luta para trazer o pensamento pros trabalhos pendentes, pelo menos por aquela noite já não adiantava mais insistir. Peguei o telefone, e depois de várias tentativas, consegui finalmente falar com ela. Rindo, um pouco envergonhada, me disse: “O pedido de ajuda não era assim tão sério, não precisava se preocupar tanto, aquela pergunta foi bobagem minha, mas obrigada por ter se preocupado comigo”. E contou-me de suas dores de amores. Conversamos sobre essas dores e outras cores. No fim, eu disse algo que era ao mesmo tempo para mim e para ela, sobre a pergunta do email “O que eu faço da minha vida?”. Eu queria falar de um jeito bem simples, que ela pudesse com seus 13 anos entender. E o que falei foi que essa pergunta iria voltar muitas vezes, que é o tipo de pergunta que nos aparece em muitos momentos da nossa vida. Sempre que estamos diante de uma escolha, sempre que estamos insatisfeitos ou tristes, sempre que acontecem coisas inesperadas que nos tiram o chão, sempre que temos "dores de amores", dessas que ela começava agora a descobrir. E que a pergunta merecia atenção, merecia que pensássemos nela com cuidado, que não era uma bobagem, não. E disse ainda que essa é uma perguntinha danada, que ninguém pode respondê-la por nós, e a resposta, que não existe pronta, tem que ser construída a cada vez que a pergunta aparecer, o que nem sempre é fácil. Às vezes, escolhemos errado e temos que repensar, refazer o caminho. Assim é a vida e seguimos fazendo tentativas sem garantias de que as escolhas feitas darão certo. Ainda me lembro as últimas frases que disse: “O que posso te dizer é que ajuda muito quando podemos partilhar as dúvidas, as tristezas, as incertezas. Posso dizer também que ajuda quando temos pessoas em quem podemos confiar, que podem estar ao nosso lado quando as coisas não estão bem, quando o coração bate muito aflito.” Nos despedimos, e combinamos de nos falar mais vezes através do msn. Ela estava mais solta, dando risadas gostosas, preocupando-se com o que iria dizer à mãe ao ser questionada sobre os segredinhos que tinha comigo.
Desligamos, eu permaneci sentada no sofá, acendi um cigarro, lembrei do caleidoscópio, das árvores que sempre terão seu tempo de nudez, do meu olhar triste. E ali, estática naquele sofá, tudo o que eu queria era uma resposta para a pergunta que não mais parava de ecoar na sala: E agora, o que eu faço da minha vida?

26 fevereiro, 2006

Em vão


Suspendo a respiração
ouço sons
que não entendo
sons lamacentos
lamentos que não pretendo.
Levanto o olhar
quero enxergar
o que ainda não está
luz girando no ar
mas vejo nuvens
e chumbo no seu lugar.
Quero movimento
não a inércia
paralisia no corpo
na alma.
A vontade fraqueja
só os dias passam
permanece a dor
e tudo imóvel ao redor.

25 fevereiro, 2006

Tristeza na carne


Tristeza na carne
na fraca carne em que habita meu fraco espírito.
Hoje estou assim,
triste e fraca,
e só e cansada.
Uma dor de viver
e essa tristeza
que não é de choro, nem de nada,
é tristeza enraizada,
que não me larga,
e me rouba toda a graça
o riso
o compasso.
Estou
triste
fraca

e cansada. Muito cansada.

23 fevereiro, 2006

Flores pisadas

Estou em guerra.
O tempo das lágrimas acabou,
o rio começa a secar.
Foi você quem não deixou alternativas,
foi você quem invadiu minha terras,
cruzou meus limites,
fez pouco, muito pouco
das minhas leis.
Sim, você não tem, não tinha
a desculpa de não saber.
Foram ordens suas,
e seus os exércitos marchando sobre meus jardins.
Memórias tristes que voltam em sonhos,
os sons, os cheiros, as imagens daqueles dias.
Sim, você sabia da guerra,
e agora, sabemos nós
que não há fuga possível,
nem sequer imaginária.
Não, não entrego meu país assim.
Estou, talvez para sempre, em guerra.



Flávio de Barros , Guerra de Canudos , 1897.

22 fevereiro, 2006

Uma alegria!


Algumas alegrias caem do céu, cafunés que meu coração entristecido não recusa. Foi assim quando nevou nesta cidade que não não via neve há 52 anos. E agora, isto, em mais que perfeita sintonia. Meu sorriso, que anda fugidio, abriu-se.

Companhia

Las dos Fridas, 1939, Óleo sobre tela, 67" x 67", Colección Museo de Arte Moderno, México.

Caminho por minha solidão
espreito cada canto,
conheço todos os detalhes,
sinto os cheiros e ouço
as vozes que nunca se calam.
Minha exigente solidão
quer-me inteira,
sem pressa,
sem prazo.
Fala-me em tom grave
que há assuntos urgentes a tratar,
mistérios que não podem, não devem esperar.
Fala-me com ternura,
que me solte,
que me deixe ficar em sua companhia,
que quem marca o compasso é a vida,
no tempo de dentro, não no dos calendários.
Dou-lhe lugar e atenção,
obedeço sem medo. A velha amiga tem razão,
esse tempo de agora, é sim
o tempo da solidão.
Há muito a tratar,
há a vida que embaralhou-se
há as feridas que ainda doem
há o grande armário das lembranças
onde está tudo misturado.
Uma bagunça desde que guardei lá
sem nenhum cuidado, tudo o que estava espalhado,
impedindo o passo,
atrapalhando a passagem,
tinha memória até no meio do corredor,
na velha garagem, nos cafés,
memória pendurada nas paredes, no chão, no quarto.
Juntei cada pedaço, joguei dentro do armário, e tranquei a porta.
E agora tudo isso pede cuidado.
Caminho então com minha solidão,
essa obstinada, mas generosa senhora.
Depois de suas estadias, vai-se e
devolve-me à mim, ao mundo, à vida.
E fica então à espreita,
põe-se de lado,
aparece para pequenas, ainda que frequentes, visitas.
De malas e sem data de ir embora
como agora, só vem quando é mesmo preciso.

18 fevereiro, 2006

Aqui plantei sementes de amor (ou Epitáfio)


Plantei nesta casa
tantas sementes de amor.
Elas não brotaram
não cresceram raízes
nem verde das folhas
ou perfume das flores
tampouco colorido dos frutos.
Fiquei desconsolada,
meu pranto encharcou a terra,
cumprindo-se o destino de
morte, apodreceram as secas,
já sem vida, sementes.
Mas foi nessa casa
que as plantei.
E por isso faço aqui velório
lápide e túmulo do que faleceu.
Feito o enterro
seguirei para o mundo.

Dentro ainda restam outras sementes
e não renego meu destino de jardineira.
Mas essa casa guardará para sempre
um pedaço de mim.
E em nome do que aqui plantei
celebrarei dignas homenagens póstumas,
em memória e poesia.


16 fevereiro, 2006

Poesia bo(b)a


Preciso cuidar de mim
com ternura e desvelo,
como cuido de quem amo.
Preciso deixar em paz a esperança,
parar de atormentá-la com desígnios tão tristes quanto fatais.
E aprender de vez que um dia ruim é só isso,
só um dia ruim.
E que ainda que seja um ano, ou até muitos,
Ainda assim é só isso, e não a vida inteira.
Preciso ler a Adélia em voz alta,
encaracolar os cabelos, desenhar os lábios,
e ouvir feliz o Chico
cantar versos que fez pra mim.

15 fevereiro, 2006

Estes dias

Dias em branco
e alguns espasmos, espantos
dias claros
luz de lúcifer, clareira lúcida
dias tristes
dores novas, antigas cantigas
dias sem prantos
sem voz, seca a garganta
dias de espera
e ao fim do luto,
novas cores no branco das minhas telas.

Obrigada

Ao meu amigo, o imprescindível amigo do cartão que deu origem ao nome desse blog, por todas as palavras, mas hoje, especialmente, por estas.

14 fevereiro, 2006

Fim

Quando nenhuma metáfora é suficiente
Quando as palavras preferem não se pronunciar
Quando nem se sabe porque a dor insiste e paralisa
E tudo é alheio, longe, estéril.
E o amor perdeu o riso e o rumo,

Desesperançou-se, despedaçado em ruínas de ilusão.

12 fevereiro, 2006

Presente

Sua poesia
sem pressa
atravessou minha travessia
desinterditou
minhas avenidas
minha vida
como magia
esse estranho dia termina
com seu fado rebolado
enchendo de vida
um reinado
sem
rei
sem
rainha.

Susto

Tantos os caminhos
nenhum mapa
nenhuma resposta
eu inquieta
solta e presa
incerta.
Tenho apenas palavras.
O porto de agora
não se fez destino,

e sim passagem.

10 fevereiro, 2006

Demora



Frida Kahlo, Diego en mi Pensamiento, 1943 - Oleo sobre masonite


“Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central”
(Panis et Circensis, Caetano Veloso e Gilberto Gil)


Não consigo parir essa dor. Essa dor de te sentir vivo dentro de mim e de ter que te matar à força, num golpe decisivo com o punhal que encomendei, mas o punhal que encomendei nunca mais fica pronto, e essa demora se alonga, e você rindo dentro de mim, fazendo graça com minhas memórias, revirando as gavetas dos anos, intrometendo-se nos meus sonhos, desalinhando minhas certezas, trepando nas teias do meu pensamento feito menino em jabuticabeira. Eu tenho urgência desse punhal, preciso te matar logo, preciso te impedir de me lembrar daquele exato instante em que você pousou pela primeira vez a mão na minha coxa, quando passamos a noite experimentando cachaças e aproximações, todos os tipos de cachaça, e nos beijamos e bêbados, não podíamos fechar os olhos que tudo rodava, e beijávamos assim mesmo, com o mundo rodando por causa da cachaça e dos beijos, e depois o mundo rodou tanto que foi preciso chão para o corpo e não só para os pés, e nós então deitados no chão daquele quarto de arrumação, e de mãos dadas e os pés para o alto, apoiados nas bicicletas apoiadas na parede, e até hoje quando fecho os olhos tudo roda ao redor, numa embriaguez que não passa, e por isso preciso do punhal, porque não aguento mais não poder fechar os olhos, não poder soltar a mão que você juntou à sua naquele dia. E essa demora não pode continuar, essa demora perigosa e traiçoeira, que te dá espaço e você, folgado, aproveita e esparrama-se no sofá da alma, serve-se de um Porto, oferece-me outro, eu recuso, já te disse que não te quero mais nem para dividir o prazer de um cálice de Porto, e você continua como se nem ouvisse minhas palavras rudes, você acha que esse lugar é seu e insiste em coisas que já não interessam, como aquelas histórias loucas que você inventava para me fazer rir, e eu ria tanto, nós ríamos tanto juntos e o mundo rodando de novo, sua mão na minha coxa, os pés na bicicleta, os risos e eu aqui, à espera desse punhal que nunca mais chega, tentando parir essa dor de te saber vivo, tão vivo dentro de mim.

09 fevereiro, 2006

Dentro e fora

Trago tristeza, desorientação
e medo emaranhados.
O mundo, tudo o que importa do mundo,
Confinado em mim
Nesse sentir que de tão fundo me sufoca
E me faz perdida. Procuro
palavras certeiras. Todas escapam-me.
Há nelas, como em mim,
O destino da falta
A incapacidade da comunicação.
A impossível ponte morre antes de ser chão.

Quero asas e um vôo alto

Quero asas e um vôo alto, livre, sem volta
Quero sumir no vento dos dias,
Esconder-me da pesada lembrança da vida.
Nunca mais meu solo encharcado de lágrimas
Nunca mais o sangue escorrendo
Nunca mais feridas que não consigo cuidar .
Assusto-me com esses pensamentos,
E o poema estanca,
Censurado antes de virar ritmo,
Abafado antes de ser asas.
Só essa chuva não consigo nunca controlar
E vira tempestade, aguaceiro
de verão no inverno Portugal.

08 fevereiro, 2006

Auto-ajuda

Tento embalar meu coração cansado numa cantiga qualquer que me faça ver mais longe. Tento serenar o espírito na certeza do caminho trilhado o ter sido feito com os pés fincados no solo da minha crença de que era, sim, o melhor caminho, chão de palavras tão reais, tão palpáveis como a terra. Chão de desejos, de busca, de encontro. Então, paro e espero. Tento ouvir o que está dentro, abafado. Tento não deixar o medo crescer. O medo, em mim, faz demasiado barulho, às vezes me ensurdece a alma, estupidifica a vida. Mas não fujo, sinto-o, que ele também sou eu e não posso evitá-lo, só o que posso fazer é aprendê-lo. Não, não quero minha alma surda. E tento aprender-me em todo o resto...minha capacidade de amar, de criar, de me deixar envolver, de me entregar com todas as forças, de me afirmar, de dizer sim ou não conforme seja sim ou não a resposta que meu coração sussurre. E agora tento ainda aprender que não é o bastante saber entregar-me, é preciso saber recolher-me e devolver-me a mim própria. E assim sigo tentando, como sempre foi, como, espero, será sempre. A vida pouco mais é do que isso, e isso não é pouco.

O filho e o pai

Homens que se devem um ao outro.

O filho, porque do pai vieram a vida,

O modelo, o aprender a ser homem.

O pai, porque ao filho dar a vida,

deu a si a difícil tarefa de ser modelo,

Tornar-se homem para o menino aprendiz

Aprender como devia ser.

E assim foi que tendo gerado o filho,

o filho gerou o pai.

E o menino olhava com olhos deslumbrados

o pai tão cheio de feitos,

que lhe derramava histórias inacreditáveis

de amores, de guerras, de lutas e honra.

Histórias de lugares e tempos distantes,

Misturadas aos cheiros e sabores dos verões partilhados,

Das enormes travessias a nado,

Das férias na capital, dos batidos de pêssego

Pelo pai preparados.

Mas o filho, como todo filho menino,

ressentia-se das ausências desse pai.

As guerras o iam deixando longe,

E não eram estas

aquelas nobres batalhas distantes

que o pai não se cansava de contar.

Eram guerras muito piores, cotidianas,

na casa-campo de batalha,

que desdiziam o que o filho desde sempre

havia ouvido do pai.

Guerras que entristeciam

E ameaçavam desfigurar mais e mais o pai

perante os olhos ávidos do pequeno aprendiz.

E foi então que o filho menino

Se fez filho virando homem.

Filho-homem que luta para proteger o homem-pai,

Filho-menino que deseja próximo o pai,

Filho-homem que descobre que a distância do pai

Não é pouco amor pelo filho.

E enquanto o menino crescia

O pai se meninava.

Hoje, o filho já homem crescido

Defronta-se com o pai menino tornado.

E ambos, sem nunca disso falar,

Põem-se agora em guerra

Lutando por algo que sequer parecem saber.

Vejo esse filho já homem e tão menino

E um pai outra vez menino ainda que tão homem.

Vejo aquele filho-menino que por esse pai

teve que fazer-se homem,

Cobrando contas passadas,

Desfazendo o que outrora fez

ao erguer a voz para defender o homem-pai,

Compreendendo suas fraquezas,

Aceitando-o nas suas omissões e erros.

Coisas que são permitidas aos homens,

Porque aos homens tudo isso é intrínseco.

Tudo o que é proibido aos pais,

Pois que os filhos, mesmo crescidos, são sempre meninos.


05 fevereiro, 2006

Dor

Acalma coração, acalma!
Acaso ignora que preciso respirar sem dor?
Que suas garras afiadas em culpas e medos
Quase me roubam a vida?
Vai, ouve meu pedido
Que é mais que pedido,
É esse suplicar desesperado
De que me desafogue,
E me largue rápido que já sinto minha força indo embora.
Ah, coração, me confessa
que violência é essa,
Onde aprendeu a ser assim?
Acalma, coração, que é preciso calma
Que o mundo não acaba
Quando seus gritos anunciam que tudo já se foi.
Então acalma e silencia
que preciso respirar sem dor.

03 fevereiro, 2006

Minha Maria também chovia

Tem horas que viro água.
E eu que já me sabia Maria,
descubro-me agora chuvosíssima.
Tudo em mim escoa
Medos, cansaço, susto
e o que mais da vida for
vira correnteza desesperada,
irrepresável.
Feito um rio que outra coisa não pode ser
além de violentas águas correndo pro mar.

Onírico

O tempo
tem pó.
Temor do tempo no amor.
Amor no não-tempo
Não tem pó.
Temporão, só tem luz
E a surpresa de poder estar
Sem nunca chegar
Sem precisar partir.
E a delícia de prescindir

Do tempo, do pó, dos nós em nós.

02 fevereiro, 2006

Sementeira

Sou tola, sei que o sou e sei há tempos.
Lembro o desgosto, o sabor azedo
cada vez que meu amigo dizia do
meu bom coração. Eu sempre o negava.
“Bom nada, que isso não existe.”
E emendava, não sei se para ele ou para mim,
“Esse coração
é apenas tolo, medroso, pela metade.”

Dou, sempre dei, muito pouco
trabalho. O amor, frágil, cheio de redomas,
de intensivos cuidados.
Não aprendi a atravessar a raiva,
escapa-me deixá-la ser
terreno por onde eu
possa caminhar. E fazia dela rio,
onde afogava-me,
afogo-me,
sozinha.


Os outros não sabiam, nem sabem.
Submersa no meu rio,
cuidava de mantê-los secos,
e o tão frágil amor protegido.
Mas o remédio fez-se veneno.
Quando percebi, já quase tudo
quase quase tudo
havia morrido.
Em meio aos escombros, à dor,
ouço palavras
vindas do que ainda vive.

As palavras do Poeta
distinguem-se claras
e tudo o mais silencia.
“Sê inteira”.
Sorrio, levanto-me,
As palavras repetem-se.
Penso no Poeta. Nas duas
palavras. E penso no amigo.
Sê inteira,
Bom coração,
Tolo, pela metade.

Sê inteira.
Se é difícil a ordem dada,
impossível é o contrário dela.
As palavras drenam minha enchente,
“Sê inteira” e seus ecos n'alma,
sementeira do porvir em que tentarei
seguir sem nada de mim
excluir,
sem nada de mim
exagerar.

24 janeiro, 2006

Outono

Vou-me embora.
Está livre o lugar
que quis ocupar em sua vida.
E estará livre dentro de mim
O espaço do desejo que te quis em minha vida.
Sinto mágoas, medos e cansaço.
E sinto raiva
E desejos confusos, ressacados.
Quero me despedir dizendo palavras que não brotam.
Palavras oníricas
De um sonho intenso e maluco.
Mas nada parece fértil agora.
Sinto-me seca, árida.
E consolo-me em pensar
Que assim é a vida.
Os ciclos sucedem-se sem nunca parar.
O tempo das chuvas já passou.
A aridez também terá seu fim.
E é um pouco triste
Saber que as minhas estações
Acontecerão longe dos seus olhos
Distante do seu sorriso e da sua voz.
Não, quisera eu que pouco fosse.
Muito triste, tristíssimo é o que é.
Mas não importa, agora é tempo de ir.

As cores de Frida e da vida

Recebi hoje de um grande, imprescindível amigo um cartão de Feliz 2006. Chegou um pouco atrasado, em meio a um início de ano turbulento que parece anunciar outras coisas, em tudo diferentes da tal felicidade que me foi desejada. O cartão traz uma foto da casa em que viveu Frida Kahlo. A casa pintada em tons de verde, vermelho e lilás. As cores tão vivas, em combinação tão inusual, invadiram minhas memórias, transportaram-me para uma dimensão em que tudo eram cores. Cada pedaço de vida, de morte, os risos, os rios de choro e pranto, o medo, os prazeres, a solidão transformados numa sucessão de cores que foram sendo pintadas por minhas e por outras mãos. Nada poderia ter maior sintonia com o que tenho vivido do que todos aqueles tons fortes, berrantes, misturados. E senti que prefiro assim a vida, mesmo quando, como agora, tudo machuca e dilacera. Não, definitivamente não quero pintar minha vida em tons pastéis.