"Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado gafe." Clarice Lispector
08 março, 2006
Busca
Procuro palavras há dias.
Hoje enquanto olhava
sapateiras presas num aquário,
descobri porque não as encontro.
As sapateiras no aquário
estão vivas
num faz-de-conta.
O enorme retângulo
cheio de água e borbulhas
é recanto da morte,
onde aguardam as já terminais sapateiras,
onde pelo fim esperam sem nem sapatear.
E olhando a morte disfarçada de vida
descobri que quero palavras
para brincar de esconde-esconde.
Buscava palavras para encobrir,
e por isso não as encontrei.
Palavras são brinquedos-revelação.
A angústia que sinto
é o sapatear das coisas
que não ouso conhecer,
confinadas num aquário
obscuro
impossível
de ignorar.
Como só o que vive sapateia
esse som torna-se tormenta e consolo.
Que então sapateiem,
façam mais e mais barulho,
até que eu as encontre,
e aprendendo-as possa finalmente nomeá-las
com as desejadas palavras que busco.
Palavras-revelação.
É como tirar as sapateiras do aquário
e devolvê-las à vida,
ao mar.
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Um comentário:
palavras sem tinta. num mar. a mulher mata os peixes.
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