01 março, 2006

E agora, o que eu faço da minha vida?

O dia estava bonito, o céu de Lisboa um espelho de luz azul. Dentro, nuvens carregadas de palavras presas. Maquiei minha dor, enfiei uma bela roupa e saí caminhando sem destino. Queria aquela luz toda invadindo minha alma, fazendo mágica em meus olhos. Andei por horas, observando as pessoas, as casas, os azulejos nas fachadas, as árvores ainda nuas à espera da primavera. Já era fim de tarde, as pernas estavam cansadas, pedindo cadeira e alívio. Foi quando sentei num café, onde havia numa das paredes um espelho que me fez ver o que no fundo eu já pressentia. Meus olhos mostravam com clareza que a mágica que desejei não tinha ocorrido. Eram olhos tristes os que lá se refletiam. Pensei nas árvores nuas mostrando o que eu tentava esquecer. E foi pensando nos galhos agora secos que mais uma vez desisti de acelerar o tempo, de querer encurtar os ciclos. Levantei-me e pus-me a caminhar de volta para meu casulo, mas não via mais ruas, nem pessoas, nem cidade. O olhar voltou-se para dentro, unindo imagens agora irmãs, as árvores nuas e o olhar triste, demorando-se em observá-las, em apreendê-las. Entrei em casa com o pensamento ainda brincando com o novo caleidoscópio que tinha trazido das minhas andanças. Já de frente para a tela do computador, puxando com força o pensamento de volta ao calendário, aos prazos e trabalhos acumulados na exata medida da rebeldia das idéias e sentimentos, que gostam de vaguear autonômos, seguindo um tempo próprio, o tempo das árvores nuas. E no meio dessa luta, abro minha caixa postal para checar meus emails. Entre algumas mensagens de amigos, uma chama de imediato a minha atenção. Vinda do outro lado do Atlântico, escrita por uma prima adolescente que mora na pequena cidade em que nasci. Era a primeira vez que ela me enviava um email, e dizia apenas: “O que eu faço da minha vida? Me ajude...”. Atordoada, perdi naquele momento a luta para trazer o pensamento pros trabalhos pendentes, pelo menos por aquela noite já não adiantava mais insistir. Peguei o telefone, e depois de várias tentativas, consegui finalmente falar com ela. Rindo, um pouco envergonhada, me disse: “O pedido de ajuda não era assim tão sério, não precisava se preocupar tanto, aquela pergunta foi bobagem minha, mas obrigada por ter se preocupado comigo”. E contou-me de suas dores de amores. Conversamos sobre essas dores e outras cores. No fim, eu disse algo que era ao mesmo tempo para mim e para ela, sobre a pergunta do email “O que eu faço da minha vida?”. Eu queria falar de um jeito bem simples, que ela pudesse com seus 13 anos entender. E o que falei foi que essa pergunta iria voltar muitas vezes, que é o tipo de pergunta que nos aparece em muitos momentos da nossa vida. Sempre que estamos diante de uma escolha, sempre que estamos insatisfeitos ou tristes, sempre que acontecem coisas inesperadas que nos tiram o chão, sempre que temos "dores de amores", dessas que ela começava agora a descobrir. E que a pergunta merecia atenção, merecia que pensássemos nela com cuidado, que não era uma bobagem, não. E disse ainda que essa é uma perguntinha danada, que ninguém pode respondê-la por nós, e a resposta, que não existe pronta, tem que ser construída a cada vez que a pergunta aparecer, o que nem sempre é fácil. Às vezes, escolhemos errado e temos que repensar, refazer o caminho. Assim é a vida e seguimos fazendo tentativas sem garantias de que as escolhas feitas darão certo. Ainda me lembro as últimas frases que disse: “O que posso te dizer é que ajuda muito quando podemos partilhar as dúvidas, as tristezas, as incertezas. Posso dizer também que ajuda quando temos pessoas em quem podemos confiar, que podem estar ao nosso lado quando as coisas não estão bem, quando o coração bate muito aflito.” Nos despedimos, e combinamos de nos falar mais vezes através do msn. Ela estava mais solta, dando risadas gostosas, preocupando-se com o que iria dizer à mãe ao ser questionada sobre os segredinhos que tinha comigo.
Desligamos, eu permaneci sentada no sofá, acendi um cigarro, lembrei do caleidoscópio, das árvores que sempre terão seu tempo de nudez, do meu olhar triste. E ali, estática naquele sofá, tudo o que eu queria era uma resposta para a pergunta que não mais parava de ecoar na sala: E agora, o que eu faço da minha vida?

2 comentários:

Anônimo disse...

I started to be more worried when I saw that you had stopped writing.Your writing is very good and it helps as a catarsis.Now I feel better since you didn't give up writing about your pain, doubts...
there is only one answer to the question: go on living. Life is that: moments of happiness, moments of sadness, moments of love,moments of anger.But, you will overcome. It is a question of time.I miss you

Anônimo disse...

despedaçam as flores em morte-vida no dia doze de dezembro. beijo