Sou tola, sei que o sou e sei há tempos.
Lembro o desgosto, o sabor azedo
cada vez que meu amigo dizia do
meu bom coração. Eu sempre o negava.
“Bom nada, que isso não existe.”
E emendava, não sei se para ele ou para mim,
“Esse coração
é apenas tolo, medroso, pela metade.”
Dou, sempre dei, muito pouco
trabalho. O amor, frágil, cheio de redomas,
de intensivos cuidados.
Não aprendi a atravessar a raiva,
escapa-me deixá-la ser
terreno por onde eu
possa caminhar. E fazia dela rio,
onde afogava-me,
afogo-me,
sozinha.
Os outros não sabiam, nem sabem.
Submersa no meu rio,
cuidava de mantê-los secos,
e o tão frágil amor protegido.
Mas o remédio fez-se veneno.
Quando percebi, já quase tudo
quase quase tudo
havia morrido.
Em meio aos escombros, à dor,
ouço palavras
vindas do que ainda vive.
As palavras do Poeta
distinguem-se claras
e tudo o mais silencia.
“Sê inteira”.
Sorrio, levanto-me,
As palavras repetem-se.
Penso no Poeta. Nas duas
palavras. E penso no amigo.
Sê inteira,
Bom coração,
Tolo, pela metade.
Sê inteira.
Se é difícil a ordem dada,
impossível é o contrário dela.
As palavras drenam minha enchente,
“Sê inteira” e seus ecos n'alma,
sementeira do porvir em que tentarei
seguir sem nada de mim
excluir,
sem nada de mim
exagerar.
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