10 fevereiro, 2006

Demora



Frida Kahlo, Diego en mi Pensamiento, 1943 - Oleo sobre masonite


“Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central”
(Panis et Circensis, Caetano Veloso e Gilberto Gil)


Não consigo parir essa dor. Essa dor de te sentir vivo dentro de mim e de ter que te matar à força, num golpe decisivo com o punhal que encomendei, mas o punhal que encomendei nunca mais fica pronto, e essa demora se alonga, e você rindo dentro de mim, fazendo graça com minhas memórias, revirando as gavetas dos anos, intrometendo-se nos meus sonhos, desalinhando minhas certezas, trepando nas teias do meu pensamento feito menino em jabuticabeira. Eu tenho urgência desse punhal, preciso te matar logo, preciso te impedir de me lembrar daquele exato instante em que você pousou pela primeira vez a mão na minha coxa, quando passamos a noite experimentando cachaças e aproximações, todos os tipos de cachaça, e nos beijamos e bêbados, não podíamos fechar os olhos que tudo rodava, e beijávamos assim mesmo, com o mundo rodando por causa da cachaça e dos beijos, e depois o mundo rodou tanto que foi preciso chão para o corpo e não só para os pés, e nós então deitados no chão daquele quarto de arrumação, e de mãos dadas e os pés para o alto, apoiados nas bicicletas apoiadas na parede, e até hoje quando fecho os olhos tudo roda ao redor, numa embriaguez que não passa, e por isso preciso do punhal, porque não aguento mais não poder fechar os olhos, não poder soltar a mão que você juntou à sua naquele dia. E essa demora não pode continuar, essa demora perigosa e traiçoeira, que te dá espaço e você, folgado, aproveita e esparrama-se no sofá da alma, serve-se de um Porto, oferece-me outro, eu recuso, já te disse que não te quero mais nem para dividir o prazer de um cálice de Porto, e você continua como se nem ouvisse minhas palavras rudes, você acha que esse lugar é seu e insiste em coisas que já não interessam, como aquelas histórias loucas que você inventava para me fazer rir, e eu ria tanto, nós ríamos tanto juntos e o mundo rodando de novo, sua mão na minha coxa, os pés na bicicleta, os risos e eu aqui, à espera desse punhal que nunca mais chega, tentando parir essa dor de te saber vivo, tão vivo dentro de mim.

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