22 fevereiro, 2006

Companhia

Las dos Fridas, 1939, Óleo sobre tela, 67" x 67", Colección Museo de Arte Moderno, México.

Caminho por minha solidão
espreito cada canto,
conheço todos os detalhes,
sinto os cheiros e ouço
as vozes que nunca se calam.
Minha exigente solidão
quer-me inteira,
sem pressa,
sem prazo.
Fala-me em tom grave
que há assuntos urgentes a tratar,
mistérios que não podem, não devem esperar.
Fala-me com ternura,
que me solte,
que me deixe ficar em sua companhia,
que quem marca o compasso é a vida,
no tempo de dentro, não no dos calendários.
Dou-lhe lugar e atenção,
obedeço sem medo. A velha amiga tem razão,
esse tempo de agora, é sim
o tempo da solidão.
Há muito a tratar,
há a vida que embaralhou-se
há as feridas que ainda doem
há o grande armário das lembranças
onde está tudo misturado.
Uma bagunça desde que guardei lá
sem nenhum cuidado, tudo o que estava espalhado,
impedindo o passo,
atrapalhando a passagem,
tinha memória até no meio do corredor,
na velha garagem, nos cafés,
memória pendurada nas paredes, no chão, no quarto.
Juntei cada pedaço, joguei dentro do armário, e tranquei a porta.
E agora tudo isso pede cuidado.
Caminho então com minha solidão,
essa obstinada, mas generosa senhora.
Depois de suas estadias, vai-se e
devolve-me à mim, ao mundo, à vida.
E fica então à espreita,
põe-se de lado,
aparece para pequenas, ainda que frequentes, visitas.
De malas e sem data de ir embora
como agora, só vem quando é mesmo preciso.

Um comentário:

Anônimo disse...

keep writing. your poetry is good.