08 fevereiro, 2006

O filho e o pai

Homens que se devem um ao outro.

O filho, porque do pai vieram a vida,

O modelo, o aprender a ser homem.

O pai, porque ao filho dar a vida,

deu a si a difícil tarefa de ser modelo,

Tornar-se homem para o menino aprendiz

Aprender como devia ser.

E assim foi que tendo gerado o filho,

o filho gerou o pai.

E o menino olhava com olhos deslumbrados

o pai tão cheio de feitos,

que lhe derramava histórias inacreditáveis

de amores, de guerras, de lutas e honra.

Histórias de lugares e tempos distantes,

Misturadas aos cheiros e sabores dos verões partilhados,

Das enormes travessias a nado,

Das férias na capital, dos batidos de pêssego

Pelo pai preparados.

Mas o filho, como todo filho menino,

ressentia-se das ausências desse pai.

As guerras o iam deixando longe,

E não eram estas

aquelas nobres batalhas distantes

que o pai não se cansava de contar.

Eram guerras muito piores, cotidianas,

na casa-campo de batalha,

que desdiziam o que o filho desde sempre

havia ouvido do pai.

Guerras que entristeciam

E ameaçavam desfigurar mais e mais o pai

perante os olhos ávidos do pequeno aprendiz.

E foi então que o filho menino

Se fez filho virando homem.

Filho-homem que luta para proteger o homem-pai,

Filho-menino que deseja próximo o pai,

Filho-homem que descobre que a distância do pai

Não é pouco amor pelo filho.

E enquanto o menino crescia

O pai se meninava.

Hoje, o filho já homem crescido

Defronta-se com o pai menino tornado.

E ambos, sem nunca disso falar,

Põem-se agora em guerra

Lutando por algo que sequer parecem saber.

Vejo esse filho já homem e tão menino

E um pai outra vez menino ainda que tão homem.

Vejo aquele filho-menino que por esse pai

teve que fazer-se homem,

Cobrando contas passadas,

Desfazendo o que outrora fez

ao erguer a voz para defender o homem-pai,

Compreendendo suas fraquezas,

Aceitando-o nas suas omissões e erros.

Coisas que são permitidas aos homens,

Porque aos homens tudo isso é intrínseco.

Tudo o que é proibido aos pais,

Pois que os filhos, mesmo crescidos, são sempre meninos.


2 comentários:

Unknown disse...

Será que sei do que está falando?
Mesmo que não saiba, foi belíssimo ler essa
poesia-conto de dor...
Aliás...seremos só poetas enquanto a dor nos persegue?

Maria disse...

Eu gosto de acreditar que você sempre sabe do que eu estou falando...beijos.