Homens que se devem um ao outro.
O filho, porque do pai vieram a vida,
O modelo, o aprender a ser homem.
O pai, porque ao filho dar a vida,
deu a si a difícil tarefa de ser modelo,
Tornar-se homem para o menino aprendiz
Aprender como devia ser.
E assim foi que tendo gerado o filho,
o filho gerou o pai.
E o menino olhava com olhos deslumbrados
o pai tão cheio de feitos,
que lhe derramava histórias inacreditáveis
de amores, de guerras, de lutas e honra.
Histórias de lugares e tempos distantes,
Misturadas aos cheiros e sabores dos verões partilhados,
Das enormes travessias a nado,
Das férias na capital, dos batidos de pêssego
Pelo pai preparados.
Mas o filho, como todo filho menino,
ressentia-se das ausências desse pai.
As guerras o iam deixando longe,
E não eram estas
aquelas nobres batalhas distantes
que o pai não se cansava de contar.
Eram guerras muito piores, cotidianas,
na casa-campo de batalha,
que desdiziam o que o filho desde sempre
havia ouvido do pai.
Guerras que entristeciam
E ameaçavam desfigurar mais e mais o pai
perante os olhos ávidos do pequeno aprendiz.
E foi então que o filho menino
Se fez filho virando homem.
Filho-homem que luta para proteger o homem-pai,
Filho-menino que deseja próximo o pai,
Filho-homem que descobre que a distância do pai
Não é pouco amor pelo filho.
E enquanto o menino crescia
O pai se meninava.
Hoje, o filho já homem crescido
Defronta-se com o pai menino tornado.
E ambos, sem nunca disso falar,
Põem-se agora em guerra
Lutando por algo que sequer parecem saber.
Vejo esse filho já homem e tão menino
E um pai outra vez menino ainda que tão homem.
Vejo aquele filho-menino que por esse pai
teve que fazer-se homem,
Cobrando contas passadas,
Desfazendo o que outrora fez
ao erguer a voz para defender o homem-pai,
Compreendendo suas fraquezas,
Aceitando-o nas suas omissões e erros.
Coisas que são permitidas aos homens,
Porque aos homens tudo isso é intrínseco.
Tudo o que é proibido aos pais,
Pois que os filhos, mesmo crescidos, são sempre meninos.
"Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado gafe." Clarice Lispector
08 fevereiro, 2006
O filho e o pai
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2 comentários:
Será que sei do que está falando?
Mesmo que não saiba, foi belíssimo ler essa
poesia-conto de dor...
Aliás...seremos só poetas enquanto a dor nos persegue?
Eu gosto de acreditar que você sempre sabe do que eu estou falando...beijos.
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